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terça-feira, 7 de agosto de 2007

ITARARÉ




“...Itararé da campinas e mil recantos amados, das verdejantes colinas e dos vales ondulados...”


Itararé: Pedra que o rio cavou, pedra escavada, curso subterrâneo das águas dum rio através de rochas calcárias. Itararé da batalha que não houve. Itararé do ramal da fome. Itararé da barreira, do corisco, dos tropeiros. Itararé da estrada de ferro da Sorocabana. Itararé do Barão de Itararé. Itararé do rio Itararé. Itararé, Itararé...

Cidade do interior paulista com divisa com o Paraná. Cidade pacata, dos aposentados jogando truco na praça São Pedro, dos católicos indo à igreja da matriz todos os domingos, das famílias passeando de carro pelas ruas de paralelepípedo. Cidade das figuras históricas e bêbados perdidos pelas ruas. Cidade tradicional e conservadora.

Quermesse, festa do peão, festa do milho verde, festa da mandioca, primeirão, associação, esquinas e quebradas: os point’s principais que viram campo de batalha às vezes, o velho faroeste.

Cinqüenta mil Itarareenses, muitos com sua cova já cavada. O recanto da inércia e do amém. Do sossego inabalável e andorinhas voando as 18:00 horas.

Na madrugada, cidade fantasma. Bares, lanchonetes, comércio, tudo fechado. Ordens do ditador supremo.

Viva as empresas que fornecem empregos. Viva aquele que subiu na vida. Os chefões que zelam por nós. O monopólio enraizado. São considerados heróis.

De trinta a quarenta minutos de caminhada atravessamos o centro urbano de Itararé. Cerrado, Pedra Branca, Santa Cruz, bairros rurais onde famílias vivem longe da “cidade”. Rua São Pedro é cidade, vila Santa Terezinha, vila Osório , Alvorada, Beca é vila ou bairro, não cidade. “Vou descer na cidade! Vou subir na cidade”.

Itararé é como três montanhas pequenas, as “verdejantes colinas”. A colina do meio é onde passa a rua São Pedro, o centro. A outra, do lado sul, fica a vila Santa Terezinha e outros bairros. A colina do norte, um pedaço fica classe alta, onde tem as mansões, e outros pedaços ficam bairro do Cruzeiro, Osório, os principais bairros.

Costumes e gírias: dez reais é deizão. Cinqüenta reais é cinquentão. “Ôô fraco”. “ Vixi Maria”. “Pôbrema”.Parar para olhar o céu quando passa avião ou helicóptero, não é sempre. A noticia boca boca: o maior meio de comunicação, rápido e ágil.

Assim é Itararé, a pedra que o rio cavou e continua cavando, mais e mais. Não sei onde podemos chegar, um futuro nebuloso e incerto.

7 comentários:

José Rodolfo Klimek Depetris Machado disse...

Itararé. Muito mais profundo e complexo esse escavado do que pensamos. Itararé sofre realmente de muitos males. Um deles, é de ser tipicamente interiorana, ou seja, pacata e passiva. Nossa geografia, no entanto, assim como a composição dos nossos bairros, é de natureza separadora e de exclusão. Disputas internas interbairros e externas, contra Sengés em uma lembrança de uma guerra que não nos pertence e quase nos destruiu, contra Itapeva em uma inveja de ter os mesmos empregos e entretenimento como o cinema que eles têm. Enfim, a própria Barreira demonstra a alma do nosso povo. Nós precisamos de uma mudança, queremos e anseamos por ela. Vivemos há muito tempo presos na idéia de coronéis, sob rédeas rígidas e opressoras. Alguma coisa tem que ser feita, o que? Cabe a cada um descobrir e agir. Nos unir e nos reconhecermos como membros de uma mesma sociedade poderia ser um primeiro passo. Derrubar os muros invisíveis que nos cercam seria um começo, ao menos, refletir sobre eles. E isso, nós estamos fazendo.

E agora José? disse...

ITARARÉ

Água mole
Pedra dura
Tanto bate
Até que fura

A serpente d’água foi amaldiçoada pelo deus-Trovão
A não mais rastejar sob o sol
Na escuridão da gruta
Onde as andorinhas dormem
Correm as águas, se esconde a santa
Túmulo de suicidas, a última Fronteira
A Barreira que não nos protege da nossa maldição

Ah, Itararé
Então, como é que é?
Para onde nos levará essa maré
De peixes podres?

Ainda temos fé
Circo, pão, Festa do Peão
E bares cheios de gente vazia
Os velhos brincam de dia
Na praça, com suas cartas
E os jovens envelhecem nas esquinas
À noite, com seus cigarros e bebidas

Eu vejo Piratas no Rio da Prata
As Batalhas ainda não estão terminadas
Nós vamos terminar o que Getúlio Vargas
começou

Por duas vezes quase desaparecemos
Talvez consigamos dessa vez
Estamos longe demais das capitais
Nem mesmo temos nossos próprios carnavais
Micaritas ilusórias

Por três vezes negaremos a nossa miséria
A nossa derrota

Pérolas aos porcos
Vão-se os anéis, ficam os dedos
O que nos restará, quando chegar a nossa hora
Vamos nos esconder onde?

Sete palmos embaixo da terra...

Água mole
Pedra dura
Tanto bate
Até que fura

E enche o saco

Murilo disse...

O texto é bom, Rodrigo. Mas só acho que tu se contradizes no final. Como o futuro é incerto se você tentou mostrar através de todo o texto que a cidade continua na mesma?

Abraço e meus parabéns. Escreveu bem mesmo.

O Grito disse...

Caro zé, não irei me estender, pois concordo em grande parte de seu comentário. Você completou. Pois há muito o que falar.

Obrigado, até mais

O Grito disse...

Murilo, obrigado pelo elogio.

Não percebi que há uma contradição.
O que escrevi é simples e lógico: é incerto pois não sabemos o futuro da cidade, independente de continuar ou não na mesma.

Mas entendi seu pensamento. Abraço

André disse...

Muito bem redigido seu texto, mas será que há agulma esperança para nós cidadãos? Até quando vamos continuar vivendo numa cidade com teorias, pensamentos e "mandamentos" do século passado? Quando realmente vamos crescer???

FER disse...

infelizmente temos que concordar com tudo o que disse..é uma pena que o população da nossa cidade seja tão pobre de espirito como é,a verdade é que geograficamente não somos nenhum pouco previlegiados,Itararé é longe de tudo..e realmente é a pedra que o rio cavou,cavou e continua cavando e digo mais pelo andar das coisas nunca vai parar de cavar